Amadeirado ocre seco, você também sente o cheiro dele em mim como o sinto em você? Você também sorri estrelas cadentes, também abraça oceanos raivosos como um dia ele fez em mim? Em mim, por mim... O que tais opções têm em comum sou eu, ocre seco. Foi comigo, e que me perdoem os semideuses que habitam os campos grandes, mas por Deus, eu estava lá. Eu senti o amarelado da areia, e eu sorri o vermelho do coração do meu karma, tão formoso karma, com mandíbulas que sustentariam pontes e olhos que dariam inveja às mais leves asas de borboletas. Olhos que beijaram meus lábios da maneira mais íntima que uma feminina há de ser beijada, lendo todos meus outros beijos e minhas ditas-palavras (por vezes juro que até as não ditas ele era capaz de encontrar). Amadeirado ocre seco, você veste a camiseta dele como eu um dia vesti? Você impregnou na pele dele como um dia impregnou na minha? Você e seu amigo tabaco, aos risos lendo meus poemas, prepotentemente os julgando seus. Coitados. Como se houvesse algo de honroso em minha arte. Nesse aqui só existe sofrimento, ocre seco, porque é isso que há de unir artistas. Cada qual artista, saudoso de seu próprio cheiro do passado, se unindo ombro a ombro para confortarem os irmãos de escrita. Arte é dor, ocre seco, então tendo isso dito, que você volte sempre. Porque eu juro por tudo que há de mais estupendo nesse mundo, a cada dia em que você se aventura a me acordar em minha cama, invadindo minhas narinas como um estuprador invade uma inocente, eu juro que não há uma folha de papel que fique em branco dentro do meu quarto. Cada uma delas, em questões de segundos, me sorriem sentenças sobre o amadeirado, o ocre, e o seco. A mandíbula, e a mordida. Os olhos, e o piscar. Todos, um dia perdidos em um passado tão rico, momentaneamente se acham em minhas canetas.
Só de saber que a arte é o que me resta... Ah, como valeu a pena, ocre seco!
porcelain - rhcp
