10.1.14

Sobre uma Música

     Amadeirado ocre seco, você também sente o cheiro dele em mim como o sinto em você? Você também sorri estrelas cadentes, também abraça oceanos raivosos como um dia ele fez em mim? Em mim, por mim... O que tais opções têm em comum sou eu, ocre seco. Foi comigo, e que me perdoem os semideuses que habitam os campos grandes, mas por Deus, eu estava lá. Eu senti o amarelado da areia, e eu sorri o vermelho do coração do meu karma, tão formoso karma, com mandíbulas que sustentariam pontes e olhos que dariam inveja às mais leves asas de borboletas. Olhos que beijaram meus lábios da maneira mais íntima que uma feminina há de ser beijada, lendo todos meus outros beijos e minhas ditas-palavras (por vezes juro que até as não ditas ele era capaz de encontrar). Amadeirado ocre seco, você veste a camiseta dele como eu um dia vesti? Você impregnou na pele dele como um dia impregnou na minha? Você e seu amigo tabaco, aos risos lendo meus poemas, prepotentemente os julgando seus. Coitados. Como se houvesse algo de honroso em minha arte. Nesse aqui só existe sofrimento, ocre seco, porque é isso que há de unir artistas. Cada qual artista, saudoso de seu próprio cheiro do passado, se unindo ombro a ombro para confortarem os irmãos de escrita. Arte é dor, ocre seco, então tendo isso dito, que você volte sempre. Porque eu juro por tudo que há de mais estupendo nesse mundo, a cada dia em que você se aventura a me acordar em minha cama, invadindo minhas narinas como um estuprador invade uma inocente, eu juro que não há uma folha de papel que fique em branco dentro do meu quarto. Cada uma delas, em questões de segundos, me sorriem sentenças sobre o amadeirado, o ocre, e o seco. A mandíbula, e a mordida. Os olhos, e o piscar. Todos, um dia perdidos em um passado tão rico, momentaneamente se acham em minhas canetas.
     Só de saber que a arte é o que me resta... Ah, como valeu a pena, ocre seco!
 
porcelain - rhcp

1.1.14

NOWHERE. NOW, HERE.

     Que os Cosmos abençoem os leitores vagarosos.
     Os que tomam tempo para lerem almas. Mundo de Enciclopédias ambulantes, toma teu tempo! Energia que não é gasta, mas é vivida, frequência de tal energia que aumenta periodicamente página após pagina que a Vida escreve. Lê devagar, mundo. A leitura transpira e inspira. Leitor é Deus, senhor do seu Destino e desapegado do destino alheio, pois venhamos e convenhamos, uma vida já sabe ser amarga demais. Mas o amargo é só o começo, leitor. O fim do livro é doce como o por do sol, com suas cores e seus recomeços.
     Feliz Livro Novo.

16.7.13

Existo, logo peco


Tudo que é santificado é um porre.
Ai de mim, que já quis a pele nunca arranhada, o peito esquerdo nunca quebrado, os dentes nunca amarelados. Ai de mim quando procurei em homens a inocencia que é amar como mulher. Ai de mim, ai da pobre mim, que já acreditou no amor sem a dor. O absoluto santo é um porre. O absoluto santo é um porre tão chato, que o homem santificou um hipotético lugar para eles todos serem chatos juntos. Ai de mim que já quis ir para o castigo que é o céu! Meus heróis morreram de overdose, abraçando o demônio às gargalhadas, com pena de tudo que é santo. Se Deus ama a todas as coisas, ele há tambem de me amar enquanto estou longe, em outra vizinhança, bêbada do vinho maldito das uvas malditas que crescem nos jardins de Lucifer. Deus ama o Diabo. Deus visita o Diabo. Deus balança a cabeça negativamente - ainda que com um triste sorriso nos lábios - quando vê o cigarro entre os dedos do Diabo, o mais bonito dos anjos. Um em cada ombro meu. Ai de mim, que fui cega pelo bule de porcelana que é a crença dos homens, voando ao lado de Marte, odiando a todos que não O dão graças e louvores a todo momento (ao santíssimo e divinissimo bule). O Diabo ama Deus. O Diabo visita Deus. O Diabo ri da túnica branca de Deus e nem percebe que, enquanto o faz, acaricia sua própria gasta jaqueta de couro, que tantos pecados presenciou. Um em cada ombro meu. O santo é tão chato. O santo se ajoelha as seis da tarde onde quer que ele esteja, porque é isso que o bule o manda fazer. Inspirador é o pecador, que não se ajoelha as seis horas porque ele estava atravessando a rua e de repente todos ao seu redor se ajoelharam, e aquela cena era tão maravilhosamente linda que ele TEVE que subir no banco da calçada e tirar uma panorâmica daquele momento. Santificar é teorizar. Pecar é praticar. É a arte de ser vivo, de atravessar a rua sem olhar para os dois lados, de acariciar o couro da jaqueta ao ver a túnica do catequizando, pensando que era muito bom ter uma crença tão livre, que não exigia uniformes. Me deixe em paz, céu! As férias desta vida eu vou passar no inferno, porque o inferno está na Terra, na planície sem a sombra da realidade do bule, porque eu sou (meu) Deus, criador do (meu) céu e da (minha) terra, e eu sou (meu) Lúcifer, anjo caído traidor e fundador do (meu) inferno. Eu perdôo meus pecados com o mesmo desespero em que os faço, e rio de minhas santidades com a mesma graça em que as agradeço; meu templo é minha têmpora e minha reza é meu verbo. Falar, amar, odiar, ajudar, inventar, 'Anar'. Eu sei ser o porre do santo. Já o fui em tantas vidas... E nesta, por estar no inferno, eu abraço o (meu) capeta.

27.4.13

A meu Filho Luis Augusto; parte 2: 1 ano

"You don't raise heroes, you raise sons. And if you treat them like sons, they'll turn out to be heroes, even if it's just in your own eyes". - Walter M. Schirra

- Mamãe, não tenha medo de ser firme comigo. Prefiro assim, faz com que eu me sinta mais seguro. Não me estrague muito, mamãe, eu sei que não devo ter tudo que peço, só estou te testando. Não deixe que eu adquira maus hábitos, porque eu dependo de você pra saber o que é bom e mau. Eu sei que as vezes eu faço umas artes, mas não me corrige com raiva, mamãe. Eu juro que vou aprender muito mais se você falar com calma e em particular. Quando eu for mais velho, não me proteja das consequências de meus erros. Vai ficar tudo bem, mãe. Ser homem é saber tambem aprender pelo caminho mais áspero, com honra. Mas tambem não me faça promessas que você não poderá cumprir mais tarde; eu tambem me desaponto com as coisas. Nao me mostre uma religião vingativa e carrancuda, pois isso me afastará dela. Não me desconverse quando eu fizer perguntas, mamãe, ou então eu procurarei as respostas que não tenho em casa em outros lugares. Não tente ser infalível. Senão ficarei extremamente chocado quando descobrir um erro seu. Eu sei que agora que comecei a andar e a falar eu fiquei "um pouco" mais ativo e propicio à causar algumas bagunças e quebrar algumas coisas (pede desculpa pra vó Marta pelo Buda dela de novo), mas nunca diga que não consegue me controlar... Eu me julgarei mais forte do que você. Eu sei que as vezes é dificil de acreditar que há um ano eu era apenas um bebezinho guardado em você, que só dormia e chutava, mas nao deixe que me tratem como uma pessoa sem personalidade. Eu tenho meu próprio jeito de ser, mamãe. Eu sei que as vezes é normal as pessoas mais velhas ficarem mal humoradas, mas nao deixe que eles fiquem apontando defeitos de pessoas que me cercam, porque isso criará em mim um espirito intolerante desde cedo. Nao tente me ensinar tudo de uma só vez, mãe, nem desista de me ensinar o bem mesmo se parecer que eu não estou aprendendo. Eu vou aprender o que você me ensinar. No futuro, eu serei o fruto daquilo que você plantou. Planta o bem em mim, mamãe. Cuida bem de mim.

Quanto cabe em um ano, Luis? Meu filho, meu presente, meu futuro, meu maior e mais precioso bem. Feliz aniversário, meu Augusto! O primeiro dia 27 de Abril da sua vida está sendo um lindo dia com céu azul e limpo, muitas risadas nossas e toda sua família que tanto te ama. Daqui alguns vários aniversários eu entregarei todas essas cartas para um Luis mais maduro e independente, tentando trazer um pouco da sua inocencia atual para o seu futuro eu. Vou te contar tua história e te mostrar que, com apenas uma risada, você sempre foi capaz de virar meu mundo de cabeca pra baixo, no melhor sentido de todos. Obrigada por mudar a minha vida. Você é o maior dos maiores amores de todas as minhas vidas. Vamos fazer com que essa seja a melhor de todas.
Yours,
Mamãe


27-04-13

27.2.13

Risadas de outros cômodos


Jogada na cama da mãe, sentindo o cheiro dela. Cheiro de mãe deixou de ser especial com o tempo, mas somente porque cheiro de mãe com o tempo passa a ser seu cheiro, dia após dia. Ta sempre lá, calmante natural. Jogada na cama da mãe, pensando na vida dela. Imaginou-se no lugar dela, com dezesseis anos e já tendo que ser forte por um bebê que a vida obrigou a ser só dela, e viu que não tinha o direito de se sentir cansada com a idade que tinha. Gente, mas eu já to com 20 anos? É isso mesmo? Ontem eu estava com 15 tentando entrar no elevador da escola, fingindo estar com um dedo quebrado pra não ter que subir os cinco andares de escadas! E lá também estava a minha mãe, tão clichê mãe, que desaprovava minha escolha de namorado, que desaprovava meu boletim, que amava ler meus textos escondida e que parecia tão séria pra todo mundo que não sentia seu cheiro diariamente. Escutei a risada dela lá da sala (“ai mas esse Sheldon Cooper é tão fofinho, me lembra o Mateus...") e dei minha risada igual, jurando escutar meu irmão também rir lá da cozinha. Você é engraçada, Marta. Séria quando tem que ser e eficiente quando tem que educar, mas engraçada. Que a sua risada nunca saia da minha. E que você continue me ensinando a ser essa mãe clichê que é tão maravilhosamente amiga. Gratidão.

Devolva-me - Adriana Calcanhoto