20.6.14

"Tenha sonhos lisérgicos, meu amor".

A meia noite é clara como o dia quando vem acompanhada dele. Eu sei que a rua é escura e suja, com suas pedras e asfaltos de areia, mas tudo parece tão claro. O preto e o jeans dele, as árvores balançando por todos os lados de minha casa, a fraca luz alaranjada do único poste de luz que nos assistia da coxia. Os olhos dele me olhavam timidamente desde o momento em que abri o portão de casa, mas eu via a pressa nos passos dele e eu via a ansiedade nos dedos dele, que em menos de cinco segundos me apertariam as costas com a mais deliciosa força que um abraço ja me mostrou ser capaz de ter. Eu o abraço de volta e nao consigo parar de rir, me perguntando se algum dia o cheiro de Marlboro me tratá alguma outra lembrança que não seja aquele pescoço, aquele cabelo escuro, aquela barba de fim de dia em minha orelha. E tudo que um dia foi dito como felicidade por qualquer outro ser humano passou a ser uma representação de nós, que reinventamos o que ser feliz, de fato, pode causar em nossos corpos. Eunão  consigo parar de tremer, amor. Olha pros meus dedos, amor. Sente meu coração, amor. Meu deus, eu estou sonhando. Eu sei que estou sonhando de novo, eu estou sonhando. E se for outra pessoa sonhando com nós dois? Meu amor, eu estou tão feliz. Eu estou tão feliz. Concordo com voce em tanto, em tanto... As vezes também acho que foi sonho. As vezes, ainda sinto seus dedos tremendo em mim. Sinto que enquanto nossas bocas mantinham uma conversa, nossos olhos mantinham outra; sussurros de "finalmente" que seus cílios beijavam em minha pele todas as vezes em que nossos olhos estavam perto o suficiente para tocar. 
Tento ser entendedora de pontos de vista, e tento sempre me lembrar que, enquanto eu vejo e analiso alguém, essealguém  tambem me ve e me analisa. Nele, com ele e por ele, vi cores noturnas mais claras do que meio-dias, vi vermelhidões em rostos e em olhos e vi o gosto que a sensação do "até que enfim" causa na ponta da nossa língua (me pinga, amor). Não sei como ele me olhou. Eu espero que ele olhe pra mim como eu olho para ele. Com nuances de um apaixonar que nao ousa sentir a necessidade de ser jurado.
Algum tempo depois, vendo-o ir embora pela rua de minha casa madrugada a dentro, passando as mãos nervosas por entre seus cabelos, se agachando no meio da rua pra olhar pro céu, tremendo, sorrindo, me olhando, lembrei-me de como é inspirador ser jovem e louca por alguém. 

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