As palmeiras da simpática varanda dançavam ao som da brisa que fazia o cafuné apaziguador no verão de Campo Grande. O café sobre a mesa de ferro era preto e era forte, ambos fortes sinais de que a menina deveria se apressar para despertar do choque causado por estar ali. O poeta, já com reflexos e músculos envelhecidos pelas décadas e pelos amores, tremeu sua xícara até seus quietos lábios, que pelos olhos dela, sempre tiveram pequenos caminhos que embelezavam ainda mais o que existia de mais simples no mundo. Ele beijou o café com a mesma sutil paixão com a qual beija palavras e voltou a depositar a porcelana sobre a mesa, tomando todo seu tempo no processo, como se o mundo dependesse da velocidade de seus atos e não o contrário. Após o que pareceu séculos, o senhor olhou para a menina, ainda entorpecida pela magnitude do momento. Ele reconheceu o tão costumeiro arregalar de olhos que despertava em seus admiradores, sorriu como quem sorri para um neto e voltou seus olhos de entendedor do mundo para as poucas nuvens que deram o ar da graça no quente dia de janeiro.
Ela estava tentando formular algo para dizer. Pelo menos acreditava estar. Sentia o peso de seu exemplar de Memórias Inventadas em sua bolsa e sentia a leveza da despreocupação do ídolo em relação a infinidade de pensamentos que preenchiam as lacunas do silêncio naquela casa de barro. Para ser bem honrosa a sinceridade, sentir era tudo que ela fazia no momento. Sentir adoração, sentir anos de estudo sumindo como se fossem marofa nos neurônios da estudante, sentir cada gota de suor que desfilava coluna abaixo e sentir o cheiro do grão que fervia nas xícaras. Puxou o ar como quem ousaria talvez falar algo, mas fora interrompida pelo grito seco do ser de penas que escolhera esse oportuno momento para sobrevoar a simpática varanda e pousar nas já mencionadas palmeiras dançarinas.
A arara azul congelou suas garras na espessa folhagem da árvore e permaneceu segundos soltos com ambas asas abertas, como se quisesse clarificar para os bestificados mortais que sim, de fato, de todas as varandas que ela podia escolher, fora a sua que recebera tal bênção, muito obrigada. Ao se fazer notada, guardou suas asas e enfiou o bico em seu pescoço, num carinho íntimo que impecavelmente superava qualquer possível auto contato humano. Pela primeira vez na terra da realidade, menina e poeta encontraram-se no mesmo plano; adoradores de personagens da natureza, não poderia ser diferente. Ambos olharam para a majestosa ave por mais alguns séculos - afinal de contas, o que seriam mais cem anos para aquela preguiçosamente confortável dupla -, e a menina quase não reparou quando o poeta sussurrou as primeiras palavras do novo milênio daquela simpática varanda.
"Que gosto te dá o voar das araras?". A pergunta obviamente fora direcionada a ela, mas os olhos dele não deixam de acariciar o espetáculo que era ter aquele voador em sua propriedade, com olhos de amante, de quem sente saudade, como Deus olhando uma de suas criações. 'Me pergunto se o deus dele também é o de Spinoza', ela pensou, mas optou pelo silêncio. Ponderou a pergunta, tocada pela implosão que era discutir o gosto do voar de asas com o pai brasileiro dos gostos e das asas (que dance de orgulho Baudelaire em seu túmulo!). O profundo necessário para achar o gosto que o voar das araras despertavam em sua língua ela ousava dizer que possuía, mas a segurança em ousar exibir tal ponta de poesia para o homem a sua frente parecia ser tão sufocante quanto discutir Amor com Camões. Ela sorriu, então, pois ironicamente, o verso que lhe viera a cabeça como conforto para seus medos de garota não poderia ser qualquer outro: "a maior riqueza do homem é a sua incompletude". Abastados. Admirou um pouco mais o perfil idoso do gênio protagonista daquilo que ela agora sabia ser apenas mais um sonho e reuniu a coragem para retirar seu livro da bolsa e anotar algumas pequenas palavras.
O gosto do voar das araras é amargo.
O amargo tem contrariantes tons pastéis.
Um comentário:
adorei, cara
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